Embora raro antes dos 50 anos, o câncer de pâncreas preocupa especialistas pela alta taxa de mortalidade e pelo aumento proporcional de casos em pessoas mais jovens. A Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO) destaca a importância da atenção a sintomas iniciais muitas vezes inespecíficos, como fadiga persistente, perda de peso sem causa aparente, dor abdominal, náuseas, desconforto nas costas e o amarelamento da pele e dos olhos, além da vigilância de fatores de risco e de alterações metabólicas inesperadas, que podem representar uma oportunidade rara de suspeita clínica mais precoce

O recente falecimento da atriz Titina Medeiros aos 48 anos chama a atenção para a ocorrência de câncer de pâncreas em pessoas abaixo dos 50 anos. Embora apenas 5,8% dos casos de câncer de pâncreas sejam diagnosticados nesta faixa etária, a crescente ocorrência em pessoas mais jovens e a alta taxa de mortalidade preocupam. Os dadosforam levantados pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO) na base Globocan 2022, da Agência Internacional para Pesquisa do Câncer da Organização Mundial da Saúde. Em números absolutos, são 29.865 casos de zero a 49 anos, diante de 510.992 registros da doença em todas as idades. No Brasil, a estimativa para 2025 é de cerca de 11 mil novos casos de câncer de pâncreas na soma de todas as idades.

Câncer de pâncreas em mulheres 

Globalmente, o câncer de pâncreas é o 11º tipo mais incidente entre as mulheres, com cerca de 241 mil novos casos por ano, mas é a sétima principal causa de morte por câncer, com aproximadamente 219 mil óbitos anuais. Essa discrepância entre incidência e mortalidade, segundo dados consolidados a partir do Globocan 2022, reflete sobretudo a dificuldade de identificar a doença em fases iniciais, quando as chances de tratamento curativo são maiores.

No Brasil, o câncer de pâncreas é a nona neoplasia mais incidente entre as mulheres, com 5.690 novos casos estimados para 2025. A distribuição etária mostra um claro predomínio da doença em idades mais avançadas. Quase sete em cada dez pacientes com tumores pancreáticos malignos, cerca de 68%, recebem o diagnóstico a partir dos 65 anos. Quando se somam os casos entre 55 e 64 anos, chega-se a 90% de toda a incidência da doença, de acordo com dados do National Cancer Institute, dos Estados Unidos. Esse perfil reforça o caráter predominantemente associado ao envelhecimento, mas não elimina o risco em faixas etárias mais jovens.

O desafio diante dos sintomas inespecíficos 

Um dos principais entraves no enfrentamento do câncer de pâncreas é a natureza pouco específica de seus sintomas iniciais. Fadiga persistente, perda de peso sem causa aparente, dor abdominal vaga, náuseas, desconforto nas costas, urina escura e o amarelamento da pele e dos olhos costumam ser atribuídos a condições benignas ou a outras doenças mais comuns. Como resultado, a busca por atendimento médico tende a ocorrer tardiamente, quando o tumor já se encontra em estágio avançado.

A ausência de um exame de rastreamento eficaz para a população geral agrava esse cenário. Diferentemente de outros tipos de câncer, não há hoje uma estratégia capaz de identificar precocemente o tumor pancreático de forma ampla e sistemática. Por isso, a atenção aos fatores de risco assume papel central. Tabagismo, obesidade e histórico familiar estão entre os principais elementos associados à doença. Há também situações clínicas que exigem vigilância mais cuidadosa, como o surgimento inesperado de diabetes em idade mais avançada ou a piora inexplicada do controle glicêmico em pessoas já diagnosticadas.

Nesses contextos, exames de imagem, como tomografia computadorizada e ressonância magnética, podem auxiliar na investigação, especialmente em indivíduos considerados de alto risco. A identificação precoce, embora ainda rara, tem impacto direto no prognóstico. Quando o câncer de pâncreas é diagnosticado em fases iniciais, a taxa de sobrevida em cinco anos pode chegar a 44%, segundo dados do programa SEER, do National Cancer Institute.

O tratamento da doença depende de uma análise criteriosa que envolve o estádio do tumor, sua localização, as condições clínicas do paciente e características biológicas específicas. A cirurgia é reconhecida como a abordagem mais eficaz, sobretudo nas fases iniciais, situação que corresponde a cerca de 20% dos casos. Em fases mais avançadas, procedimentos cirúrgicos paliativos podem ser indicados com o objetivo de aliviar sintomas e prevenir complicações. Quimioterapia e radioterapia, utilizadas de forma individualizada, também contribuem para ampliar a sobrevida.

O cirurgião oncológico Paulo Henrique de Sousa Fernandes, presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO), explica que o debate sobre câncer de pâncreas em pessoas mais jovens deve ser conduzido com equilíbrio e base científica. “O câncer de pâncreas é majoritariamente uma doença do envelhecimento, mas isso não significa que esteja restrito aos idosos. Quando ocorre antes dos 50 anos, o impacto é grande porque foge do padrão esperado e, muitas vezes, é diagnosticado tardiamente”, afirma.

Ainda segundo Fernandes, é importante evitar tanto o alarmismo quanto a minimização do problema. A alta mortalidade do câncer de pâncreas está relacionada, principalmente, ao diagnóstico em fases avançadas e à agressividade biológica do tumor. Ele destaca ainda que não existe hoje um exame de rastreamento populacional eficaz, o que torna a informação de qualidade e a atenção aos fatores de risco fundamentais para antecipar a suspeita clínica.

O presidente da SBCO aponta também que hábitos de vida saudáveis, como alimentação equilibrada e prática regular de atividade física, têm papel relevante na redução de riscos, assim como o acompanhamento médico em pessoas com histórico familiar da doença. “Quando conseguimos identificar o câncer de pâncreas em estádios iniciais, a combinação de cirurgia e tratamentos complementares pode alterar de forma significativa o prognóstico”, conclui Paulo Fernandes.

Sobre a SBCO - Fundada em 31 de maio de 1988, a Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO) é uma entidade sem fins lucrativos, com personalidade jurídica própria, que agrega cirurgiões oncológicos e outros profissionais envolvidos no cuidado multidisciplinar ao paciente com câncer. Sua missão é também promover educação médica continuada, com intercâmbio de conhecimentos, que promovam a prevenção, detecção precoce e o melhor tratamento possível aos pacientes, fortalecendo e representando a cirurgia oncológica brasileira. É presidida pelo cirurgião oncológico Paulo Henrique de Sousa Fernandes (2025-2027).


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