Publicada em 20/11/2014 às 15:43

'Falta autovalorização dos negros', diz liderança de movimento afro no AM

Presidente do Instituto Ganga Zumba destaca avanços e barreiras. Criação de Conselho deve ampliar debate sobre cultura, diz liderança.

Luiz Fernando Costa enfatizou que é preciso o resgate de tradições negras (Foto: Adneison Severiano/G1 AM)
Luiz Fernando Costa enfatizou que é preciso o resgate de tradições negras (Foto: Adneison Severiano/G1 AM)
 

Apesar da ampliação do debate sobre consciência negra no país, a participação da população negra em iniciativas em prol da cultura e das tradições quilombolas no Amazonas ainda é considerada tímida, segundo avaliação do educador popular e presidente do Instituto Ganga Zumba, Luiz Fernando Costa. Para ele, o autorreconhecimento e aceitação dos próprios negros são essências para quebrar paradigmas enfrentados pelas populações afrodescendentes. "É preciso trabalhar a autoestima do negro", afirmou.

Segundo Costa, o processo de reconhecimento da cultura negra é complexo diante das heranças históricas de discriminação. "A gente aprendeu a não se reconhecer na escola. Nas relações sociais, têm muito de não se aceitar como somos. Há a questão do estereótipo do nariz, do cabelo", comentou.

Para ele, a autovalorização da população negra é importante no processo de igualdade racial. O presidente do Instituto Ganga Zumba esclareceu que a política de igualdade não é uma batalha de branco contra negro, mas o reconhecimento de um grupo étnico. 

"A primeira coisa que temos de fazer é ganhar altivez. Os movimentos têm trabalhado para essa valorização, e a cultura vai ser um grande veículo para promover uma condução de igualdade e direito. É preciso trabalhar a autoestima, reconhecer as cantigas que a avó cantava e as rezas que a avó benzedeira fazia. É preciso ter essa relação de buscar e não ter vergonha, porque essa é nossa história", destacou Luiz Fernando. 

 

"É preciso trabalhar a autoestima do negro"
Luiz Fernando Costa
 

Perspectiva
A partir de 2015, os movimentos que lutam pela igualdade racial esperam uma ampliação do debate de políticas públicas para os negros no Amazonas por meio da criação uma nova iniciativa. Trata-se do Conselho de Promoção de Igualdade Racial que, segundo Costa, reunirá movimentos e secretarias estaduais. Atualmente, a proposta aguarda homologação dos marcos regulatório na Casa Civil do Governo do Amazonas.

"É um assunto que a gente começou a tratar há pouco tempo e as pessoas olhavam, mas ninguém fala sobre essas dificuldades. O estado tem avançado, mas é óbvio que ainda não é na velocidade que desejamos. Com a criação do Conselho, poderemos debater vários pontos e ampliar o debate de políticas públicas de igualdade racial. O conselho vai estabelecer regras e condições de diálogo com o estado", disse Costa.

O reconhecimento da comunidade do Barranco, no bairro Praça 14 de Janeiro, Zona Sul de Manaus, como remanescente de quilombola é uma das principais conquistas do movimento negro neste ano, segundo o representante. A certificação foi emitida pela Fundação Cultural Palmares. A portaria que oficializa a certificação foi publicada no Diário Oficial da União (DOU) em setembro deste ano. Em 2013, cinco comunidades quilombolas situadas em Barreirinha foram reconhecidas.

"Ter o segundo quilombo urbano do país é uma conquista de orgulho para o Amazonas. Os negros chegaram ali [Praça 14] e é uma referência da nossa cultura e religiosa. O reconhecimento é legítimo e justo", afirmou.

Celebração
Nesta quinta-feira (20), data que marca o Dia da Consciência Negra, o Instituto Ganga Zumba promove o "Projeto Personalidades Negras". A quadra da Escola de Samba Grande Família, em Manaus, será palco da valorização de expoentes locais da cultura negra. A programação começa a partir das 18h com shows, recitais e apresentações de dança. O projeto existe há quatro anos.

"O projeto tem como foco valorizar as pessoas da comunidade negra. Geralmente, sempre quem tem um trabalho de relevância premiamos nessa atividade. Nesse ano, o formato é de show e quem assina a direção é a cantora da terra Elisa Maia. Vamos contar com participação de Antônio Bahia e Mara Lima, que são grandes expoentes da música amazonense”, informou Luiz Fernando.

Autor: G1 AM
Fonte: G1 AM