Publicada em 29/09/2014 às 13:27

Ataque ao CIMI Amazônia Ocidental: Dossiê Acre

Desde sua criação em 1972, o CIMI tornou-se um protagonista incontornável na luta dos povos ameríndios quanto ao respeito pelos seus direitos políticos e culturais.

Por Lucas Matheron, AgoraVox (Bruxelas)

O CIMI – Conselho Indigenista Missionário – é uma organização vinculada à Igreja Católica através da CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – que, em meio à ditadura militar, decidiu ampliar sua ação missionária aos povos indígenas visados pela política de integração cultural empreendida pelo Estado totalitário. Desde sua criação em 1972, o CIMI tornou-se um protagonista incontornável na luta dos povos ameríndios quanto ao respeito pelos seus direitos políticos e culturais [1].

 

Composto tanto por leigos como religiosos, o CIMI reúne, sobretudo, militantes da causa indígena que executam as ações e os objetivos definidos pela Assembleia Geral bienal. A serviço dos povos indígenas, as ações desses missionários idealistas se situam nos campos da teologia e da antropologia, bem como nos setores da comunicação, da educação, da formação ou da saúde, mas também no plano jurídico, notadamente no âmbito da demarcação das reservas indígenas.

 

Concebido a partir de uma vontade política da CNBB, o CIMI abriu sua rota no caminho da emancipação dos povos indígenas e, sob a impulsão dos seus membros repartidos em todo o território brasileiro, a organização se impôs na paisagem política do país, principalmente nas questões indígenas, claro, mas também, por tabela, no tocante às questões ambientais ou fundiárias, questões fundamentais que corroem, ainda hoje, a sociedade brasileira.

 

É nesse contexto que em certas regiões, notadamente na Amazônia, membros do CIMI vivem uma luta constante contra as oligarquias desenvolvimentistas do país, em especial os setores da mineração e do agrobusiness, sendo objeto de intimidações e ameaças. Recentemente, essa terça-feira 23 de setembro, no Estado do Acre (Extremo Oeste do país), nessa mesma terra que testemunhou o assassinato de Chico Mendes 26 anos atrás, a sede regional do CIMI foi depredada e seus equipamentos de informática em parte destruídos, entre os quais os discos rígidos que foram roubados [2]. Para os responsáveis locais da organização, os membros associados ou os simpatizantes, a assinatura do ato de vandalismo não faz dúvida; a organização está em guerra aberta contra os ruralistas (fazendeiros) que são inimigos “hereditários” das populações indígenas das quais eles querem as terras para ampliar seu agronegócio. Os mesmos motivos pelos quais, há 30 anos, Chico Mendes havia se tornado o homem a ser derrubado.

 

Ora, na paisagem política nacional, os ruralistas representam uma força com a qual os governos devem contar, e mais ainda os candidatos a governantes. Com efeito, os grupos de interesses ultrapassam as filiações partidárias e as alianças políticas, sejam elas abertas ou veladas, mostrando claramente as forças ocultas das velhas oligarquias conservadoras que mantêm ainda a sociedade brasileira sob o jugo de uma tradição colonialista, até mesmo feudal.

 

Nesse contexto de conflitos, Lindomar Padilha, coordenador do CIMI da região da Amazônia ocidental é um ativista militante que não poupa nem os políticos locais e nacionais, nem os fazendeiros que estão em guerra aberta contra as tribos ameríndias que reivindicam suas terras ancestrais. No seu blog [3], Lindomar denuncia tanto as milícias ruralistas que assassinam regularmente líderes indígenas ou trabalhadores rurais, quanto as políticas governamentais que visam favorecer o desenvolvimento do agronegócio “verde” na Amazônia, ou ainda as manobras de políticos locais ou nacionais implicados em projetos duvidosos naquele recanto perdido do mundo. E os casos se seguem repetitivamente, e de forma crescente.

 

Essas denúncias são reprisadas por um tanto de sites de ONG ou de blogs de parceiros, amigos ou simpatizantes. Dentre eles, a rede Aliança RECOS repassa as informações para os quatro cantos do país, e na medida do possível, tentamos projetá-las internacionalmente, pois sabemos que uma projeção em maior escala permite um melhor apoio a essas ações militantes contra os abusos de poder e as perversidades de toda ordem num mundo – a Amazônia – praticamente sem lei. Ver artigos anteriores [4] e [5] a respeito.

 

Frequentemente, nos sentimos muito pequenos nas garras da corrupção latente e dos poderes políticos que têm como dono o deus dinheiro. Mas quando recebemos mensagens de apoio, de incentivo ou agradecimentos, tanto por parte de quem foi vitimado quanto de outros que nos apoiam, reencontramos a fé no que é justo e forças para prosseguir nessa luta militante. É esse apoio que hoje queremos dar ao Lindomar e sua esposa Rosimeire, que o auxilia na coordenação regional, para lhes dizer que não estão sozinhos. Eis o porquê é tão importante poder contar com uma rede de mídia independente que não faz o jogo do poder. A Aliança RECOS encaixa suas ações nessa linha e ficamos felizes de encontrar aqui um apoio e a possibilidade de transmitir essas informações.

 

[1] www.cimi.org.br

[2] www.insurgentecoletivo.blogspot.com.br/2014/09/invasao-sede-regional-do-cimi-amazonia.html

[3] www.lindomarpadilha.blogspot.com.br

[4] www.agoravox.fr/ecrire/?exec=articles&id_article=144970

[5] www.agoravox.fr/ecrire/?exec=articles&id_article=145642

 

 
* Lucas Matheron, é ecologista, francês de origem, radicado no Brasil há 30 anos, tradutor independente nos idiomas francês e português. Membro da Aliança RECOS (Redes de Cooperação Comunitária Sem Fronteiras) desde 1999, da qual é coordenador de comunicação para os países francófonos. www.lucas-traduction.trd.br

Veja em Francês

http://www.agoravox.fr/tribune-libre/article/attaque-contre-le-cimi-amazonie-157349

 

Attaque contre le CIMI Amazonie orientale : Dossier Acre

par Lucas Matheron (son site)
lundi 29 septembre 2014

 

Le CIMI (Conseil Indigéniste Missionnaire) est une organisation liée à l’Église Catholique brésilienne par le biais de la CNBB (Conférence Nationale des Évêques du Brésil) qui, en pleine dictature militaire, a décidé d’élargir son action missionnaire aux peuples indigènes visés par l’intégration culturelle mise en place par l’État totalitaire. Depuis sa création en 1972, le CIMI est devenu un acteur incontournable de la lutte des peuples amérindiens pour le respect de leurs droits politiques et culturels [1].

Tout autant composé de laïques que de religieux, le CIMI rassemble surtout des militants de la cause indigène qui exécutent les actions et les objectifs définis par l’Assemblée générale bisannuelle. Au service des peuples indigènes, les actions de ces missionnaires idéalistes se situent dans les champs théologique et anthropologique, ainsi que sur les secteurs de la communication, l’éducation, la formation ou la santé, mais aussi au plan juridique, notamment dans le cadre de la démarcation des réserves indigènes.

Conçu à partir d’une volonté politique de la CNBB, le CIMI s’est frayé un chemin sur la voie de l’émancipation des peuples indigènes et, sous l’impulsion de ses membres répartis sur tout l’ensemble du territoire brésilien, l’organisation s’est imposée dans le paysage politique du pays, principalement sur les questions indigènes, bien sûr, mais également, et par ricochet, sur des questions environnementales ou foncières qui sont les questions fondamentales qui minent encore la société brésilienne d’aujourd’hui.

C’est dans ce cadre que dans certaines régions, et notamment en Amazonie, des membres du CIMI vivent en lutte constante contre les oligarchies développementistes du pays, en particulier les secteurs miniers et l’agrobusiness, faisant l’objet de menaces et d’intimidations. Récemment, mardi 23 septembre, dans l’État du Acre (Extrême-Ouest du pays), sur cette même terre qui fut témoin de l’assassinat de Chico Mendes il y a 26 ans, le siège régional du CIMI a été saccagé et ses équipements informatiques en partie détruits, dont les disques durs qui ont été dérobés [2]. Pour les responsables locaux de l’organisation, les membres associés ou les sympathisants, il n’y a pas de doute quant à la signature de l’acte de vandalisme ; l’organisation est en guerre ouverte contre les « ruralistes » (propriétaires terriens) qui sont les ennemis « héréditaires » des populations indigènes dont ils veulent les terres pour amplifier leur agronégoce. Les mêmes raisons pour lesquelles, 30 ans plus tôt, Chico Mendes était devenu l’homme à abattre.

Or, dans le paysage politique national, les ruralistes représentent une force avec laquelle les gouvernements doivent compter, et plus encore les candidats au gouvernement. En effet, les groupements d’intérêts dépassent les appartenances partisannes et les alliances politiques, soient-elles ouvertes ou sous le voile, montrant clairement les forces occultes des vieilles oligarchies conservatrices qui maintiennent toujours la société brésilienne sous le joug d’une tradition colonialiste, voire féodale.

Dans ce contexte de conflits, Lindomar Padilha, coordinateur du CIMI de la région Amazonie orientale, est un activiste militant qui n’épargne ni les politiciens locaux et nationaux, ni les propriétaires terriens qui sont en guerre ouverte contre les tribus amérindiennes qui revendiquent leurs terres ancestrales. Dans son blog [3], Lindomar dénonce tout autant les milices ruralistes qui assassinent régulièrement des leaders indigènes ou des petits paysans, que les politiques gouvernementales qui visent à favoriser le développement de l’agronégoce « vert » en Amazonie, ou encore les manœuvres de politiciens locaux ou nationaux impliqués dans des projets douteux dans ce coin perdu du monde. Et les cas se succèdent répétitivement, et de manière croissante.

 

Ces dénonciations sont reprises par un certain nombre de sites d’ONG ou de blogs de partenaires, d’amis et de sympathisants. Parmi ceux-ci, le réseau Aliança RECOS relaie les informations sur l’ensemble du pays et, dans la mesure du possible, nous essayons de les projeter à l’international, car nous savons qu’une projection de plus grande amplitude permet de mieux soutenir ces actions militantes contre les abus de pouvoir et les exactions de toutes sortes dans un monde – l’Amazonie – pratiquement sans loi. Voir les articles précédents [4] et [5] à ce sujet.

Bien souvent, nous nous sentons petits dans l’étau de la corruption latente et des pouvoirs politiques qui ont pour maître le dieu argent. Mais lorsque nous recevons des messages de soutien, des encouragements ou des remerciements, des uns qui sont victimes ou des autres qui sont sympathisants, nous retrouvons la foi en ce qui est juste et des forces pour poursuivre ce combat militant. C’est ce soutien que nous voulons donner aujourd’hui à Lindomar et à son épouse Rosimeire, qui le seconde pour la coordination régionale, pour leur dire qu’il ne sont pas seuls. Voilà pourquoi il est si important de pouvoir compter sur un réseau de médias indépendants qui ne font pas le jeu du pouvoir. L’Aliança RECOS inscrit son action dans cette ligne et nous sommes heureux de trouver ici un appui et un relai.

 

Manifestation indigène

Manifestation pour un service de santé pour la communauté indigène

Manifestation Jurua

Manif contre l’exploitation pétrolière en Amazonie.

 


Sobre Agora Vox

 

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Autor: Lucas Matheron
Fonte: Editores RECOs