Publicada em 08/10/17

Sempre crianšas

Em artigo quase recente, eu dizia, em falando de filhos, netos, de crianças, enfim, que uma casa com crianças é mais lar. Uma amiga, também escritora, leu o artigo e comentou que não concordava. Ela acha que uma casa sem crianças pode, sim, ser um lar completo. Eu acho ótimo que o tema abordado seja debatido, porque nossas verdades são diferentes, a verdade de um não é necessariamente a verdade do outro e comparar nossas verdades é bom.

Então eu concordo, até porque as situações são diferentes. Os filhos da minha amiga transitam pela casa dela com certa frequencia, o neto também vem lhe visitar, e isso faz toda a diferença, o lar contiua não sendo só dela. É da família.

É bom esclarecer que o fato de não termos mais nossas crianças vivendo em nossa casa não nos faz pessoas trites, absolutamente. Somos felizes, mesmo na nossa casa tão grande, agora. O que nos faz falta talvez não seja, simplesmente, a presença de crianças, mas das nossas crianças.

A verdade é que, queiramos ou não, a época mais feliz de nossas vidas foi aquela quando  vivemos a infância e a juventude de nossas crianças. Sentimos falta daquele tempo, sentimos falta da infância das nossas crianças, que continuam sendo crianças para nós, mesmo que agora sejam adultas e vivam suas vidas bem longe, além mar, em França e Portugal. Depois dessas infâncias em nossas vidas, nós, eu e Stela, não nos somos mais suficientes, pois tudo nos faz lembrar que a família não está completa, as crianças não estão, por isso a casa parece tão grande. Mas esperamos os netos. Eles hão de nos devolver toda aquela infância e toda aquela juventude que alçaram  voo de nossa casa para encontrarem seus caminhos e nos deixaram tanta saudade.

Mas ter saudades é bom. Saudade significa felicidade, uma ou duas ou tantas felicidades que passaram pela nossa vida e que podemos recriar. O privilégio de ter nossas crianças significa isso, além de tudo o mais que eles significam para nós: felicidades que estão guardadas e que podemos rememorar.

Então, crianças, feliz dia da criança para vocês. Feliz dia da Criança para nós. Para todos nós, pois o fato de ter nossas crianças é tudo. E criança pode ser tudo o que quisermos e até o que não quisermos, mas que ela significa felicidade, isso não podemos negar. Porque criança é vida, é esperança, é renascimento. Criança é  a nossa primavera.

Na verdade, poderíamos, sim, ser pais deprimidos e tristes, pois temos uma saudade vitalícia, antiga, de nossa primeira criança que chegou, mas foi embora muito rapidamente, num dia de outubro em que as flores de jacatirão começaram a desabrochar, há muitas primaveras. Mas a vida continuou e sabemos que nosso anjo primeiro nos guardou e ajudou-nos a cuidar de nossas crianças que chegaram depois e que nos dão muito amor, muito orgulho, estando já na vida adulta, ainda que para nós sejam apenas e principalmente, abençoadamente, nossas crianças.

Por Luiz Carlos Amorim - Escritor, editor e revisor – Fundador e presidente do Grupo Literário A ILHA, que completa 37 anos de literatura neste ano de 2017. Cadeira 19 da Academia Sulbrasileira de Letras. http://www.prosapoesiaecia.xpg.uol.com.brhttp://luizcarlosamorim.blogspot.com.br